Discurso para Campinas – reduzido

por Nora Rónai

Amigos, bom dia! Deixa eu me apresentar: sou Nora Rónai tenho 93 anos e meio, sou brasileira, viúva de Paulo Rónai, arquiteta, mãe orgulhosa de duas filhas, Cora e Laura, avó de quatro netos e bisavó de seis bisnetos. Sou de índole feliz e, por destino, sortuda.

Hoje, então, estou particularmente feliz, me sentindo honrada por ter sido convidada para esse evento tão bonito e importante, e por me ver diante de um público simpático e seleto como vocês. Seleto, sim, porque a sua própria presença denota um espírito vivo e alerta ao futuro que nos aguarda e ao ambiente, que bem administrado poderá influir drasticamente no bem-estar de nós todos, ou se mal administrado, ocasionará a nossa perdição.

Atualmente vocês tem uma grande vantagem que não havia na minha época de arquiteta atuante: o incrível acesso que a Internet proporciona a qualquer um, mas principalmente àqueles que sabem procurar, não apenas a outras culturas e outras maneiras de se viver, mas também a idéias práticas de projetos de arquitetura, engenharia e decoração, soluções espertas para espaços pequenos, maneiras inteligentes de se reaproveitar materiais, modos únicos de estabelecer a interação entre espaços internos e externos… Na minha época, isso só existia em revistas de arquitetura que a gente assinava, e às vezes trocava entre amigos. Hoje, basta ter um celular à disposição. Fico encantada de ver quantas pessoas hoje se dedicam a tentar tornar nosso planeta mais agradável, mais receptivo…

Mas às vezes ficamos tão ligados ao computador e às imagens daí capturadas, que acabamos esquecendo que nada disso substitui a experiência ao vivo: um evento como a Mostra + Sustentável reúne em um único lugar pessoas interessadas em viabilizar uma vida melhor para seus semelhantes, e também proporciona a experiência ao vivo e a cores de mostrar de que maneira muitas idéias de muitas cabeças podem se unir para um resultado ao mesmo tempo acolhedor e atual, que respeita o ambiente e os seres humanos em igual medida.

 

Quando falamos em ambiente, em geral, nós o pensamos no atacado, abarcando a totalidade do nosso planeta. Mas há de se considerar o ambiente também a varejo: o da nossa cidade, por exemplo, e em última análise o da nossa casa. Em ambos os casos, um ambiente aprazível, funcional e bem adequado às nossas necessidades vitais favorece o equilíbrio emocional e a índole pacífica de quem o habita, promovendo assim a saúde física e mental de seus usuários.

Posto isso, fico perplexa ao constatar o número exorbitante de edifícios feios, tristes, apinhados que frequentemente desfiguram as nossas cidades. São construções de várias épocas e todas revelam uma certa semelhança entre si, provocada pelas imposições dos códigos de obras e posturas municipais dos tempos em que foram concebidas. Assim, por exemplo, passando por uma rua, a gente vê um monstrinho desses e pode afirmar de chofre – Esse é dos anos 60! Ao lado, outro monstrengo – Ai, ai, esse é de 1940 e pouco; e assim por diante. Entristeço-me e penso: meu Deus, não foi isso que ensinei aos meus alunos na faculdade.

Será que temos mesmo tantos arquitetos ruins assim? Claro que não, como veremos mais adiante. Por enquanto, continuemos o nosso passeio pelos subúrbios e pelas comunidades, que na minha juventude chamavam-se favelas. Dizem, porém, que chamá-las de “comunidades” é politicamente mais correto. Politicamente? Mais correto por que? Aí é que está: primeiro fazemos a desordem. Por motivos políticos, não impedimos as pessoas premidas pela miséria de erguerem seus barracos em terrenos perigosos, praticamente avessos a qualquer tipo de urbanização, que para ser realizada exigiria investimentos financeiramente inviáveis. Tendo cometido a mixórdia, ficamos com vergonha dela e por isso “favela” passa a ser uma denominação depreciativa. “Comunidade” será, durante algum tempo, mais elegante, mas na realidade não adiantará nada: a coleta do lixo continuará precária ou inexistente, assim como o saneamento básico e a segurança. Já se vê que um ambiente desses não favorece a convivência pacífica.

Vejam agora em que situação calamitosa nos metemos. Nos subúrbios, onde a topografia dos terrenos permitiria uma urbanização bem razoável, não a executamos. “Falta de dinheiro”, argumentam os nossos edis, deputados e tais, enquanto gasta-se dinheiro aos magotes em obras duvidosas de “embelezamento” perfeitamente dispensáveis. E assim deparamos com as cercanias de nossas cidades totalmente decadentes: esgotos a céu aberto, lixo para tudo quanto é lado, moscas, baratas, ratos, pernilongos em abundância. Outra vez me assalta aquela tristeza, aquele desânimo.

Eu pertenço às classes desarmadas desse país; não tenho poder, não posso fazer nada…ou será que posso? Pois, ao contrário do que sugere o título do conto de Machado de Assis, “Suje-se gordo”, eu advogo o “Limpe-se magro”. Isso é, você que porventura é, como eu fui, arquiteto de alguma firma Imobiliária, não ceda cegamente aos impulsos gananciosos dos seus patrões: tente convence-los a fazer algo de melhor:  cada árvore que você conseguir salvar, cada metro quadrado que você puder acrescentar aos exíguos espaços que hoje chamam de apartamentos, quando deveriam ser denominados apertamentos, cada uma dessas ações encherá a você de satisfação, lavará a sua alma, além de melhorar a vida de muitas pessoas. Creiam-me, pois eu passei por tudo isso e sei que o que eu proponho funciona.

Ainda dentro desse assunto, vejamos: os pés direitos dos nossos apartamentos. Nossos avôs viviam em casas cujos pés-direitos regulavam entre 4 e 4 ½ metros. Do ponto de vista do ambiente, eram casas corretas, porque tinham um espaço para o ar quente subir. Lá em cima, no forro, uma ventilação cruzada levava para fora o ar quente que se acumulava. Por isso as casas dos nossos avós eram sempre fresquinhas, não precisavam de ar condicionado. Poupava-se energia, as centrais elétricas trabalhavam menos e, portanto, emitiam menos fumaça e gases poluentes.

Já na minha época, os pés direitos eram padronizados em 3 metros. Em consequência disso, todos os materiais de construção industrializados obedeciam a esse padrão. Mesmo que você quisesse fazer um pé direito maior, teria grande dificuldade de encontrar materiais em medidas diferentes.

Aí surgiu um geninho das finanças que pensou: uma vez que nós vendemos imóveis cobrando pelo metro quadrado e não pelo metro cúbico como alhures, que tal cortar 10 cm do pé direito? Ninguém haverá de reparar e nós ganharemos 3,3% em cada andar. Vejam que grande negócio: consideremos um prédio de médio porte e com 10 andares. O preço por andar regularia, digamos, em um milhão de reais. O lucro do homem será de r$ 33.000 por andar ou r$ 330.000 no prédio inteiro – falo em lucro adicional além do que já lhe caberia sem essa manobra.

Grande sucesso, parabéns! Todo mundo achou a ideia brilhante e passou a imitá-la, mas por que não cortar logo 20 centímetros do pé direito e construí-lo com 2 metros e 80? Claro, porque não?  Destarte poder-se-ia vender os imóveis um pouco mais baratos, e apesar disso ter um bom lucro. E foi assim que, cortando de 10 em 10 cm, chegamos hoje a apartamentos com 2.60 m. de pé direito, e até menos. É um sofrimento! Ninguém aguenta aquele calor, e dá-lhe ar-condicionado dia e noite funcionando sem parar. Afinal o Brasil é um país de clima preponderantemente quente, tropical.

Dizem os economistas que a moeda ruim sempre expulsa a boa do mercado. Se você tem moedas cunhadas em ouro circulando ao mesmo tempo do que as impressas em papel de mesmo valor, as de ouro acabarão sumindo, entesouradas no fundo das gavetas ou debaixo dos colchões. Assim também nos esportes, se um atleta se dopa, outro fará o mesmo. Em breve, todos se verão na obrigação de se doparem, achando que sem isso não terão a mínima chance de ganhar dos adversários dopados. E, no entanto, sempre surgem atletas valorosos que por respeito até a si mesmos, recusam-se a compactuar com semelhantes ardis e vencem limpos, apesar de tudo.

Pois meus caros colegas, eu vos exorto a agirem como bravos atletas que são, na luta pela sobrevivência. Não desistam, tentem pouco a pouco subir de volta os pés direitos a alturas toleráveis, e aumentar as áreas úteis das construções nas quais vocês puderem ter um mínimo de influência. Vocês não irão se arrepender: uma vez que a parte mais cara de uma construção são os banheiros e as cozinhas, isto é, as instalações, o aumento de preço de modo algum será proporcional ao aumento de conforto que vocês poderão oferecer a seus clientes. Os ares-condicionados estarão funcionando durante menos tempo, as centrais elétricas usarão menos água das represas, todo o mundo ficará mais contente e vocês terão conseguido influir beneficamente na vida de muita gente e no meio ambiente também.

Olhem que até agora só falei de melhorias mínimas, pontuais, que qualquer arquiteto sem poder absoluto decisório como era o meu caso pode promover. Mas é claro que podendo investir mais, advirão lucros maiores e bem-estar incalculável. Refiro-me aos incríveis avanços tecnológicos que nos permitem hoje em dia captar a energia do sol, dos ventos, e do mar a um custo praticamente zero para o ambiente.

Ao construir a nossa própria residência em Nova Friburgo, nos idos dos anos 60, embora já estivesse com as finanças minguando, não hesitei em construir artesanalmente um aquecedor solar – o produto industrializado ainda não existia – que desde então nos fornece, a custo zero, água quente para a casa toda, para 2 banheiros e para a cozinha. Fiz também uma composteira atrás da casa: todo o lixo orgânico era jogado em uma das câmaras da composteira, e ao final, quando se passava para outra câmara, da primeira podia se retirar adubo pronto, e um adubo bem rico por sinal: muitas plantas lá em casa foram adubadas com este excelente composto, e deram florações espetaculares.

Só não providenciei eletricidade com placas de células fotoelétricas porque o custo delas ultrapassaria de longe as nossas possibilidades econômicas. Mesmo assim, nesse mais de meio século, imaginem o quanto poupamos em recursos de energia ao não precisarmos de chuveiro elétrico nem de ducha a gás. Outra sugestão tecnológica ainda nos aconselha a distribuir pelo piso o aquecimento das casas situadas nas regiões mais frias do país. Essa técnica vai aquecer por igual e com menos gastos de energia os ambientes assim tratados.

E o que dizer dos inúmeros novos materiais de construção? Um que me parece muito simpático é um piso de cerâmica que imita muito bem a madeira. É prático, por ser um piso frio bem agradável no nosso clima tão quente, por ser de limpeza fácil e por poupar do corte milhares de árvores. Vejam só, eu velha arquiteta, há décadas fora do baralho – pois é, sou da época do jaú e não do guindaste – estou aqui a elucubrar a respeito de tecnologias e materiais de construção. Parece-me que estou ensinando padre a rezar missa! Perdoem-me se for esse o caso, mas eu estava considerando também a eventual desinformação do público leigo, que afinal não tem obrigação de estar por dentro desses assuntos.

 

Às vezes fico pasma ao ver a disposição de pessoas que passam noites madrugada adentro, postadas às portas de algum hotel, para ver, nem que seja de relance, seus Ídolos: algum cantor, ator ou jogador de futebol lá hospedados. É pena perder o tempo dessa maneira, em vez de usá-lo para ler um bom livro, o que seria tão mais proveitoso! Eu não nego o merecimento de muitas dessas celebridades, apenas acho exagerada toda aquela idolatria.

 

Na quietude de uma biblioteca a gente pode comungar com os maiores gênios que já habitaram nosso planeta, e sem fazer fila, sem longas vigílias e sem se acotovelar para tanto. Suponho que de novo andei pregando para convertidos. Mas se por acaso houver aqui alguém nem tão afeito às leituras e que, de agora em diante passe a procurar mais as livrarias e bibliotecas − além das piscinas, é claro − considerarei isso uma grande vitória e ficarei deveras feliz.

Se vocês me permitem fazer uma recomendação de um livro que é interessante e divertido para todo arquiteto ou para qualquer pessoa que esteja “sofrendo” obras dentro de sua casa enquanto, por necessidade, continue morando nela: leiam A Casa do Califa, de Tahir Shah. Vale muito a pena, eu garanto.

Obrigada pela paciência com que me ouviram e pelo carinho com que me receberam. Até a próxima!

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