Discurso para Campinas – reduzido

por Nora Rónai

Amigos, bom dia! Deixa eu me apresentar: sou Nora Rónai tenho 93 anos e meio, sou brasileira, viúva de Paulo Rónai, arquiteta, mãe orgulhosa de duas filhas, Cora e Laura, avó de quatro netos e bisavó de seis bisnetos. Sou de índole feliz e, por destino, sortuda.

Hoje, então, estou particularmente feliz, me sentindo honrada por ter sido convidada para esse evento tão bonito e importante, e por me ver diante de um público simpático e seleto como vocês. Seleto, sim, porque a sua própria presença denota um espírito vivo e alerta ao futuro que nos aguarda e ao ambiente, que bem administrado poderá influir drasticamente no bem-estar de nós todos, ou se mal administrado, ocasionará a nossa perdição.

Atualmente vocês tem uma grande vantagem que não havia na minha época de arquiteta atuante: o incrível acesso que a Internet proporciona a qualquer um, mas principalmente àqueles que sabem procurar, não apenas a outras culturas e outras maneiras de se viver, mas também a idéias práticas de projetos de arquitetura, engenharia e decoração, soluções espertas para espaços pequenos, maneiras inteligentes de se reaproveitar materiais, modos únicos de estabelecer a interação entre espaços internos e externos… Na minha época, isso só existia em revistas de arquitetura que a gente assinava, e às vezes trocava entre amigos. Hoje, basta ter um celular à disposição. Fico encantada de ver quantas pessoas hoje se dedicam a tentar tornar nosso planeta mais agradável, mais receptivo…

Mas às vezes ficamos tão ligados ao computador e às imagens daí capturadas, que acabamos esquecendo que nada disso substitui a experiência ao vivo: um evento como a Mostra + Sustentável reúne em um único lugar pessoas interessadas em viabilizar uma vida melhor para seus semelhantes, e também proporciona a experiência ao vivo e a cores de mostrar de que maneira muitas idéias de muitas cabeças podem se unir para um resultado ao mesmo tempo acolhedor e atual, que respeita o ambiente e os seres humanos em igual medida.

 

Quando falamos em ambiente, em geral, nós o pensamos no atacado, abarcando a totalidade do nosso planeta. Mas há de se considerar o ambiente também a varejo: o da nossa cidade, por exemplo, e em última análise o da nossa casa. Em ambos os casos, um ambiente aprazível, funcional e bem adequado às nossas necessidades vitais favorece o equilíbrio emocional e a índole pacífica de quem o habita, promovendo assim a saúde física e mental de seus usuários.

Posto isso, fico perplexa ao constatar o número exorbitante de edifícios feios, tristes, apinhados que frequentemente desfiguram as nossas cidades. São construções de várias épocas e todas revelam uma certa semelhança entre si, provocada pelas imposições dos códigos de obras e posturas municipais dos tempos em que foram concebidas. Assim, por exemplo, passando por uma rua, a gente vê um monstrinho desses e pode afirmar de chofre – Esse é dos anos 60! Ao lado, outro monstrengo – Ai, ai, esse é de 1940 e pouco; e assim por diante. Entristeço-me e penso: meu Deus, não foi isso que ensinei aos meus alunos na faculdade.

Será que temos mesmo tantos arquitetos ruins assim? Claro que não, como veremos mais adiante. Por enquanto, continuemos o nosso passeio pelos subúrbios e pelas comunidades, que na minha juventude chamavam-se favelas. Dizem, porém, que chamá-las de “comunidades” é politicamente mais correto. Politicamente? Mais correto por que? Aí é que está: primeiro fazemos a desordem. Por motivos políticos, não impedimos as pessoas premidas pela miséria de erguerem seus barracos em terrenos perigosos, praticamente avessos a qualquer tipo de urbanização, que para ser realizada exigiria investimentos financeiramente inviáveis. Tendo cometido a mixórdia, ficamos com vergonha dela e por isso “favela” passa a ser uma denominação depreciativa. “Comunidade” será, durante algum tempo, mais elegante, mas na realidade não adiantará nada: a coleta do lixo continuará precária ou inexistente, assim como o saneamento básico e a segurança. Já se vê que um ambiente desses não favorece a convivência pacífica.

Vejam agora em que situação calamitosa nos metemos. Nos subúrbios, onde a topografia dos terrenos permitiria uma urbanização bem razoável, não a executamos. “Falta de dinheiro”, argumentam os nossos edis, deputados e tais, enquanto gasta-se dinheiro aos magotes em obras duvidosas de “embelezamento” perfeitamente dispensáveis. E assim deparamos com as cercanias de nossas cidades totalmente decadentes: esgotos a céu aberto, lixo para tudo quanto é lado, moscas, baratas, ratos, pernilongos em abundância. Outra vez me assalta aquela tristeza, aquele desânimo.

Eu pertenço às classes desarmadas desse país; não tenho poder, não posso fazer nada…ou será que posso? Pois, ao contrário do que sugere o título do conto de Machado de Assis, “Suje-se gordo”, eu advogo o “Limpe-se magro”. Isso é, você que porventura é, como eu fui, arquiteto de alguma firma Imobiliária, não ceda cegamente aos impulsos gananciosos dos seus patrões: tente convence-los a fazer algo de melhor:  cada árvore que você conseguir salvar, cada metro quadrado que você puder acrescentar aos exíguos espaços que hoje chamam de apartamentos, quando deveriam ser denominados apertamentos, cada uma dessas ações encherá a você de satisfação, lavará a sua alma, além de melhorar a vida de muitas pessoas. Creiam-me, pois eu passei por tudo isso e sei que o que eu proponho funciona.

Ainda dentro desse assunto, vejamos: os pés direitos dos nossos apartamentos. Nossos avôs viviam em casas cujos pés-direitos regulavam entre 4 e 4 ½ metros. Do ponto de vista do ambiente, eram casas corretas, porque tinham um espaço para o ar quente subir. Lá em cima, no forro, uma ventilação cruzada levava para fora o ar quente que se acumulava. Por isso as casas dos nossos avós eram sempre fresquinhas, não precisavam de ar condicionado. Poupava-se energia, as centrais elétricas trabalhavam menos e, portanto, emitiam menos fumaça e gases poluentes.

Já na minha época, os pés direitos eram padronizados em 3 metros. Em consequência disso, todos os materiais de construção industrializados obedeciam a esse padrão. Mesmo que você quisesse fazer um pé direito maior, teria grande dificuldade de encontrar materiais em medidas diferentes.

Aí surgiu um geninho das finanças que pensou: uma vez que nós vendemos imóveis cobrando pelo metro quadrado e não pelo metro cúbico como alhures, que tal cortar 10 cm do pé direito? Ninguém haverá de reparar e nós ganharemos 3,3% em cada andar. Vejam que grande negócio: consideremos um prédio de médio porte e com 10 andares. O preço por andar regularia, digamos, em um milhão de reais. O lucro do homem será de r$ 33.000 por andar ou r$ 330.000 no prédio inteiro – falo em lucro adicional além do que já lhe caberia sem essa manobra.

Grande sucesso, parabéns! Todo mundo achou a ideia brilhante e passou a imitá-la, mas por que não cortar logo 20 centímetros do pé direito e construí-lo com 2 metros e 80? Claro, porque não?  Destarte poder-se-ia vender os imóveis um pouco mais baratos, e apesar disso ter um bom lucro. E foi assim que, cortando de 10 em 10 cm, chegamos hoje a apartamentos com 2.60 m. de pé direito, e até menos. É um sofrimento! Ninguém aguenta aquele calor, e dá-lhe ar-condicionado dia e noite funcionando sem parar. Afinal o Brasil é um país de clima preponderantemente quente, tropical.

Dizem os economistas que a moeda ruim sempre expulsa a boa do mercado. Se você tem moedas cunhadas em ouro circulando ao mesmo tempo do que as impressas em papel de mesmo valor, as de ouro acabarão sumindo, entesouradas no fundo das gavetas ou debaixo dos colchões. Assim também nos esportes, se um atleta se dopa, outro fará o mesmo. Em breve, todos se verão na obrigação de se doparem, achando que sem isso não terão a mínima chance de ganhar dos adversários dopados. E, no entanto, sempre surgem atletas valorosos que por respeito até a si mesmos, recusam-se a compactuar com semelhantes ardis e vencem limpos, apesar de tudo.

Pois meus caros colegas, eu vos exorto a agirem como bravos atletas que são, na luta pela sobrevivência. Não desistam, tentem pouco a pouco subir de volta os pés direitos a alturas toleráveis, e aumentar as áreas úteis das construções nas quais vocês puderem ter um mínimo de influência. Vocês não irão se arrepender: uma vez que a parte mais cara de uma construção são os banheiros e as cozinhas, isto é, as instalações, o aumento de preço de modo algum será proporcional ao aumento de conforto que vocês poderão oferecer a seus clientes. Os ares-condicionados estarão funcionando durante menos tempo, as centrais elétricas usarão menos água das represas, todo o mundo ficará mais contente e vocês terão conseguido influir beneficamente na vida de muita gente e no meio ambiente também.

Olhem que até agora só falei de melhorias mínimas, pontuais, que qualquer arquiteto sem poder absoluto decisório como era o meu caso pode promover. Mas é claro que podendo investir mais, advirão lucros maiores e bem-estar incalculável. Refiro-me aos incríveis avanços tecnológicos que nos permitem hoje em dia captar a energia do sol, dos ventos, e do mar a um custo praticamente zero para o ambiente.

Ao construir a nossa própria residência em Nova Friburgo, nos idos dos anos 60, embora já estivesse com as finanças minguando, não hesitei em construir artesanalmente um aquecedor solar – o produto industrializado ainda não existia – que desde então nos fornece, a custo zero, água quente para a casa toda, para 2 banheiros e para a cozinha. Fiz também uma composteira atrás da casa: todo o lixo orgânico era jogado em uma das câmaras da composteira, e ao final, quando se passava para outra câmara, da primeira podia se retirar adubo pronto, e um adubo bem rico por sinal: muitas plantas lá em casa foram adubadas com este excelente composto, e deram florações espetaculares.

Só não providenciei eletricidade com placas de células fotoelétricas porque o custo delas ultrapassaria de longe as nossas possibilidades econômicas. Mesmo assim, nesse mais de meio século, imaginem o quanto poupamos em recursos de energia ao não precisarmos de chuveiro elétrico nem de ducha a gás. Outra sugestão tecnológica ainda nos aconselha a distribuir pelo piso o aquecimento das casas situadas nas regiões mais frias do país. Essa técnica vai aquecer por igual e com menos gastos de energia os ambientes assim tratados.

E o que dizer dos inúmeros novos materiais de construção? Um que me parece muito simpático é um piso de cerâmica que imita muito bem a madeira. É prático, por ser um piso frio bem agradável no nosso clima tão quente, por ser de limpeza fácil e por poupar do corte milhares de árvores. Vejam só, eu velha arquiteta, há décadas fora do baralho – pois é, sou da época do jaú e não do guindaste – estou aqui a elucubrar a respeito de tecnologias e materiais de construção. Parece-me que estou ensinando padre a rezar missa! Perdoem-me se for esse o caso, mas eu estava considerando também a eventual desinformação do público leigo, que afinal não tem obrigação de estar por dentro desses assuntos.

 

Às vezes fico pasma ao ver a disposição de pessoas que passam noites madrugada adentro, postadas às portas de algum hotel, para ver, nem que seja de relance, seus Ídolos: algum cantor, ator ou jogador de futebol lá hospedados. É pena perder o tempo dessa maneira, em vez de usá-lo para ler um bom livro, o que seria tão mais proveitoso! Eu não nego o merecimento de muitas dessas celebridades, apenas acho exagerada toda aquela idolatria.

 

Na quietude de uma biblioteca a gente pode comungar com os maiores gênios que já habitaram nosso planeta, e sem fazer fila, sem longas vigílias e sem se acotovelar para tanto. Suponho que de novo andei pregando para convertidos. Mas se por acaso houver aqui alguém nem tão afeito às leituras e que, de agora em diante passe a procurar mais as livrarias e bibliotecas − além das piscinas, é claro − considerarei isso uma grande vitória e ficarei deveras feliz.

Se vocês me permitem fazer uma recomendação de um livro que é interessante e divertido para todo arquiteto ou para qualquer pessoa que esteja “sofrendo” obras dentro de sua casa enquanto, por necessidade, continue morando nela: leiam A Casa do Califa, de Tahir Shah. Vale muito a pena, eu garanto.

Obrigada pela paciência com que me ouviram e pelo carinho com que me receberam. Até a próxima!

Discurso para Campinas – janeiro/agosto/2017

por Nora Rónai

Amigos, bom dia! Deixa eu me apresentar: sou Nora Rónai tenho 93 anos e meio, sou brasileira, viúva de Paulo Rónai, arquiteta, mãe orgulhosa de duas filhas, Cora e Laura, avó de quatro netos e bisavó de seis bisnetos. Sou de índole feliz e, por destino, sortuda.

Hoje, então, estou particularmente feliz, me sentindo honrada por ter sido convidada para esse evento tão bonito e importante, e por me ver diante de um público simpático e seleto como vocês.

Seleto, sim, porque a sua própria presença denota um espírito vivo e alerta ao futuro que nos aguarda e ao ambiente, que bem administrado poderá influir drasticamente no bem-estar de nós todos, ou se mal administrado, pode ocasionar a nossa perdição.

Atualmente vocês tem uma grande vantagem que não havia na minha época de arquiteta atuante: o incrível acesso que a Internet proporciona a qualquer um, mas principalmente àqueles que sabem procurar, não apenas a outras culturas e outras maneiras de se viver, mas também a idéias práticas de projetos de arquitetura, engenharia e decoração, soluções espertas para espaços pequenos, maneiras inteligentes de se reaproveitar materiais, modos únicos de estabelecer a interação entre espaços internos e externos… Na minha época, isso só existia em revistas de arquitetura que a gente assinava, e às vezes trocava entre amigos. Hoje, basta ter um celular à disposição. Fico encantada de ver quantas pessoas hoje se dedicam a tentar tornar nosso planeta mais agradável, mais receptivo…

Mas às vezes a gente fica tão ligado ao computador e às imagens que podemos capturar, que acabamos esquecendo que nada disso substitui a experiência ao vivo: um evento como a Mostra + Sustentável reúne em um único lugar pessoas interessadas em viabilizar uma vida melhor para seus semelhantes, e também proporciona a experiência ao vivo e a cores de mostrar de que maneira muitas idéias de muitas cabeças podem se unir para um resultado ao mesmo tempo acolhedor e atual, que respeita o ambiente e os seres humanos em igual medida.

Quando falamos em ambiente, eu diria que, em geral, nós o pensamos no atacado, abarcando a totalidade no nosso planeta. Mas há de se considerar o ambiente também a varejo: o da nossa cidade, por exemplo, e em última análise o da nossa casa. Em ambos os casos, um ambiente aprazível, funcional e bem adequado às nossas necessidades vitais favorece o equilíbrio emocional e a índole pacífica de quem o habita, promovendo assim a saúde física e mental de seus usuários.

Posto isso, fico perplexa ao constatar o número de exorbitante de edifícios feios, tristes, apinhados que frequentemente desfiguram as nossas cidades. São construções de várias épocas e todas revelam uma certa semelhança entre si, provocada pelas imposições dos códigos de obras e posturas municipais dos tempos em que foram concebidas. Assim, por exemplo, passando por uma rua, a gente vê um monstrinho desses e pode afirmar de chofre – Esse é dos anos 60! Ao lado, outro monstrengo – Ai, ai, esse é de 1940 e pouco; e assim por diante. Entristeço-me e penso: meu Deus, não foi isso que ensinei aos meus alunos na faculdade.

Será que temos mesmo tantos arquitetos ruins assim? Claro que não, como veremos mais tarde. Por enquanto, continuemos o nosso passeio pelos subúrbios e pelas comunidades, que na minha juventude chamavam-se favelas. Dizem, porém, que chamá-las de ―comunidades‖ é politicamente mais correto. Politicamente? Mais correto por que? Aí é que está: primeiro fazemos a desordem. Por motivos políticos não impedimos as pessoas premidas pela miséria de erguerem seus barracos em terrenos perigosos, praticamente avessos a qualquer tipo de urbanização, que para ser realizada exigiria investimentos financeiramente inviáveis. Tendo cometido a mixórdia, ficamos com vergonha dela e por isso “favela” passa a ser uma denominação depreciativa. “Comunidade” será, durante algum tempo, mais elegante, mas na realidade não adiantará nada: a coleta do lixo continuará precária ou inexistente, assim como o saneamento básico e a segurança. Já se vê que um ambiente desses não favorece a convivência pacífica.

Vejam agora em que situação calamitosa nos metemos. Nos subúrbios, onde a topografia dos terrenos permitiria uma urbanização bem razoável, não a executamos. “Falta de dinheiro”, argumentam os nossos edis, deputados e tais, enquanto gasta-se dinheiro aos magotes em obras duvidosas de “embelezamento” perfeitamente dispensáveis. E assim deparamos com as cercanias de nossas cidades totalmente decadentes: esgotos a céu aberto, lixo para tudo quanto é lado, moscas, baratas, ratos, pernilongos em abundância. Outra vez me assalta aquela tristeza, aquele desânimo.

Eu pertenço às classes desarmados desse país; não tenho poder, não posso fazer nada…ou será que posso? Pois, ao contrário do que sugere o título do conto de Machado de Assis, “Suje-se gordo”, eu advogo o “Limpe-se magro”. Isso é, você que porventura é, como eu fui, arquiteto de alguma firma Imobiliária, não ceda cegamente aos impulsos gananciosos dos seus patrões: tente convence-los a fazer algo de melhor: cada árvore que você conseguir salvar, cada metro quadrado que você puder acrescentar aos exíguos espaços que hoje chamam de apartamentos, quando o deveriam ser dominados apertamentos, cada uma dessas ações encherá a você de satisfação, lavará a sua alma, além de melhorar a vida de muitas pessoas. Creiam-me, pois eu passei por tudo isso e sei que o que eu proponho funciona.

Ainda dentro desse assunto, vejamos: os pés direitos dos nossos apartamentos. Nossos avôs viviam em casas cujos pés- direitos regulavam entre 4 e 4 1⁄2 metros. Do ponto de vista do ambiente, eram casas corretas, porque tinham um espaço para o ar quente subir. Lá em cima, no forro, uma ventilação cruzada levava para fora o ar quente que se acumulava. Por isso as casas dos nossos avós eram sempre fresquinhas, não precisavam de ar condicionado. Poupava-se energia, as centrais elétricas trabalhavam menos e, portanto, emitiam menos fumaça e gases poluentes.

Já na minha época, os pés direitos eram padronizados em 3 metros. Em consequência disso, todos os materiais de construção industrializados obedeciam a esse padrão. Mesmo que você quisesse fazer um pé direito maior, teria grande dificuldade de encontrar materiais e medidas diferentes.

Aí surgiu um geninho das finanças que pensou: uma vez que nós vendemos imóveis cobrando pelo metro quadrado e não pelo metro cúbico como alhures, que tal cortar 10 cm do pé direito? Ninguém haverá de reparar e nós ganharemos 3,3% em cada andar. Vejam que grande negócio: consideremos um prédio de médio porte e com 10 andares. O preço por andar regularia, digamos, em um milhão de reais. O lucro do homem será de r$ 33.000 por andar ou r$ 330.000 no prédio inteiro – falo em lucro adicional além do que já lhe caberia sem essa manobra.

Grande sucesso, parabéns! Todo mundo achou brilhante e passou a imitá-lo, mas por que não cortar logo 20 centímetros do pé direito e construí-lo com 2 metros e 80? Claro, porque não? Destarte poder-se-ia vender os imóveis um pouco mais baratos, e apesar disso ter um bom lucro. E foi assim que, cortando de 10 em 10 cm, chegamos hoje a apartamentos com 2.60 m. de pé direito. É um sofrimento! Ninguém aguenta aquele calor, e dá-lhe ar-condicionado dia e noite funcionando sem parar. Afinal o Brasil é um país de clima preponderantemente quente, tropical.

Dizem os economistas que a moeda ruim sempre expulsa a boa do mercado. Se você tem moedas cunhadas em ouro circulando ao mesmo tempo do que as impressas em papel de mesmo valor, as de ouro acabaram sumindo, entesouradas no fundo das gavetas ou debaixo dos colchões. Assim também nos esportes, se um atleta se dopa, outro fará o mesmo. Em breve, todos se verão na obrigação de se doparem, achando que sem isso não terão a mínima chance de ganhar dos adversários dopados. E, no entanto, sempre surgem atletas valorosos que por respeito até a si mesmos, recusam-se a compactuar com semelhantes ardis e vencem limpos, apesar de tudo.

Pois meus caros colegas, eu vos exorto a agirem como bravos atletas que são, na luta pela sobrevivência. Não desistam, tentem pouco a pouco subir de volta os pés direitos a alturas toleráveis, e aumentar as áreas úteis das construções nas quais vocês puderem ter um mínimo de influência. Vocês não irão se arrepender: uma vez que a parte mais cara de uma construção são os banheiros e as cozinhas, isto é, as instalações, o aumento de preço de modo algum será proporcional ao aumento de conforto que vocês poderão oferecer a seus clientes. Os ares-condicionados estarão funcionando durante menos tempo, as centrais elétricas usarão menos água das represas, todo o mundo ficará mais contente e vocês terão conseguido influir beneficamente na vida de muita gente e no meio ambiente também.

Olhem que até agora só falei de melhorias mínimas, pontuais, que qualquer arquiteto sem poder absoluto decisório como era o meu caso pode promover. Mas é claro que podendo investir mais, advirão lucros maiores e bem-estar incalculável. Refiro-me aos incríveis avanços tecnológicos que nos permitem hoje em dia captar a energia do sol, dos ventos, e do mar a um custo praticamente zero para o ambiente.

Ao construir a nossa própria residência em Nova Friburgo, nos idos dos anos 60, embora já estivesse com as finanças minguando, não hesitei em construir artesanalmente um aquecedor solar – o produto industrializado ainda não existia – que desde então nos fornece, a custo zero, água quente para a casa toda, para 2 banheiros e para a cozinha. Fiz também uma composteira atrás da casa: todo o lixo orgânico era jogado em uma das câmaras da composteira, e ao final, quando se passava para outra câmara, da primeira podia se retirar adubo pronto, e um adubo bem rico por sinal: muitas plantas lá em casa foram adubadas com este excelente composto, e deram florações espetaculares.

Só não providenciei eletricidade com uma placa de células fotelétricas porque o custo delas ultrapassaria de longe as nossas possibilidades econômicas. Mesmo assim, nesse mais de meio século, imagina o quanto poupamos em recursos de energia ao não precisarmos de chuveiro elétrico nem de ducha a gás. Outra sugestão tecnológica ainda nos aconselha a distribuir pelo piso o aquecimento das casas situadas nas regiões mais frias do país. Essa técnica vai aquecer por igual e com menos gastos de energia os ambientes assim tratados.

Um que me parece muito simpático é um piso de cerâmica que imita muito bem a madeira. É prático, por ser um piso frio bem – Ah, entendi! – retruca o inquiridor – assim, não havendo brigas, a agradável no nosso clima tão quente, por ser de limpeza fácil e por poupar do corte milhares de árvores. Vejam só, eu velha arquiteta, há décadas fora do baralho – pois é, sou da época do jaú e não do guindaste – estou aqui a elucubrar a respeito de tecnologias e materiais de construção. Parece-me que estou ensinando padre a rezar missa! Perdoem-me se for esse o caso, mas eu estava considerando também a eventual desinformação do público leigo, que afinal não tem obrigação de estar por dentro desses assuntos.

E a propósito de Velhice, aventaram que eu falasse algo sobre a longevidade dos Arquitetos. Ai, ai, temo não saber nada a esse respeito. Posso lhes falar sobre a longevidade da arquiteta, esta que vos fala.

Muitas vezes me perguntam qual seria o segredo de chegar a uma provecta idade em boas condições de saúde. Essas perguntas sempre me lembram aquela anedota na qual o inquirido responde:

– Sabe, minha mulher e eu desde o início do nosso casamento decidimos não nos estressar nunca. Caso um de nós ficasse zangado, magoado, chateado, não iria discutir o relacionamento; simplesmente sairia para dar um passeio até que a raiva passar, e e assim ficaria tudo em paz.

– Ah, entendi! – retruca o inquiridor – assim, não havendo brigas, a pressão não sobe, o coração é poupado, os nervos…

– Nada disso, – interrompe o outro. – Imagine você uma longa vida sempre ao ar livre. Isso dá uma saúde e tanto!

É claro que no meu caso não houve brigas ou mágoas para  serem dissipadas em passeios. Mas havia uma casa dos nossos sonhos em Nova Friburgo, com belo jardim, flores e cantos de passarinhos, que nos convidavam ao passeio, a nós dois juntos, ao meu marido e a mim. Além disso, sendo eu nadadora Master, ficava, aliás fico ainda, pelo menos uma hora e meia por dia nadando ao ar livre na piscina. Aí eu penso: vai ver que a anedota diz a verdade; o segredo deve ser o ar livre. Ou será a natação? Mas sobretudo, penso que é a felicidade.

Acho também que uma maneira de a gente viver muito é não perder o interesse pelo mundo que nos cerca, é ficar antenado, não se enfurnar em casa, queixando-se daquele calo incomodo no pé, daquela dor no joelho ou nas costas, da vista cansada ou do ouvido deficiente. Mas que mal faria, uma vez que já estamos aposentados ficar em casa e socializar as nossas mazelas? Aí é que está. Eu descobri que não adianta se queixar. Ninguém, mas ninguém mesmo pode nos fazer felizes. Nem nós mesmos temos esse poder… mas podemos tornar o ambiente em que vivemos mais contente e alegre. Essa atmosfera harmoniosa, qual uma luz benéfica refletida por espelhos, nos penetra e nos torna mais fortes, mais esperançosos, mais ditosos… e pronto! Criamos um círculo virtuoso. Mas é impossível criar tal círculo virtuoso com um velhinho ou uma velhinha ranzinza e queixosa em seu centro.

O que nós podemos fazer, portanto, para nos distrair do que nos incomoda, é procurar uma atividade ou lazer que nos interesse de verdade. Melhor ainda seria procurar um lazer para o espírito (leitura, estudo, atividades artísticas, artesanato) e outro para o corpo. Esse pode ser qualquer esporte ou uma frequência assídua a uma academia de ginástica ou dança. Eu — já não disse que sou sortuda? — disponho de 3 hobbies, 3 lazeres: gosto de ler, de cuidar de plantas e de nadar.

Essa última atividade sem contar a benéfica paz de espírito que nos proporciona, traz também grandes vantagens para a saúde: além de fortalecer os ossos e os músculos, ela previne doenças cardiovasculares e doenças degenerativas dos neurônios do cérebro, como o mal de Alzheimer ou a doença de Parkinson. Isso foi o meu médico, Dr. Vicente quem me garantiu, mas esse fato não exclui a possibilidade de um nadador eventualmente cair vítima dessas doenças, é claro, apenas no cômputo estatístico resulta que elas a tingem muito menos os nadadores do que os sedentários. Para evitar o sedentarismo, a natação não é o único caminho. Podemos escolher entre uma carrada de esportes: corrida, ciclismo, tênis futebol, artes marciais, atletismo, ginástica e o que mais seja.

Você não gosta de se mexer? Não faz mal. Vá passear, então. Mas ande com uma certa regularidade. O importante é não desistir, essa de desistir do esporte, seja ele qual for, não funciona.

Há gente que recomeça a toda hora. Não recomece, comece e não desista, nunca mais. Isso me lembra uma anedota inversa, a do moço que afirmava ser facílimo deixar de fumar, posto que ele mesmo já havia abandonado o cigarro umas sessenta vezes!

Para se manter minimamente perseverante na atividade física de nossa escolha, é bom ter algum incentivo, alguma meta. Eu, por exemplo, como já falei, sou nadadora master há 23 anos Para quem não está familiarizado com o esporte master, explicou: vocês terão observado que a maioria dos atletas é jovem. Um atleta de 30 anos já é uma raridade. Isso porque, à medida que os anos passam, a gente perde massa muscular apesar dos treinos diários. Perde força de explosão, não consegue mais dar partidas tão rápidas nem sustentar um ritmo tão veloz durante as provas.

Os velhos atletas, portanto, não conseguem mais os mesmos resultados espetaculares dos seus anos de juventude, perdem as competições para os mais novos e vão desistindo. Isso é, iam desistindo até que a FINA (Federação Internacional de Natação) acabou regulamentando as competições de atletas de idades avançadas, classificando-os por faixas etárias. De 25 a 29 anos, de 30 a 34 anos, de 35 a 39, e assim por diante. Eu estou na faixa de 90 a 94 anos. Só tenho adversárias de 90, 91, 92, 93 e 94 anos. Se e quando eu fizer 95, passarei a competir com atletas de 95 em diante, até 99 anos. Mas notem bem, estou competindo! Isso se torna um grande estímulo para a gente não esmorecer.

Vou nadar 4 vezes por semana, faça frio, faça calor, caia chuva, ou brilhe o sol. – Ah, mas você gosta de nadar! – argumentaria alguém – assim é fácil. Não, não é fácil, não. Mesmo gostando há dias em que a gente simplesmente não tem disposição. A tendência aí é de virar para o outro lado e continuar dormindo. O que nos salva dessa tentação é saber que teremos tais e mais tais outros campeonatos pela frente, as nossas adversárias são poderosas e afinal não nos convém pagar mico na competição.

Depois do treino, vem aquela sensação de orgulho e satisfação, pois acabamos de vencer a nossa mais temível adversária: a nós mesmas. Que dirá então do campeonato em si? Cada pequeno sucesso nos traz felicidade garantida. No meu primeiro campeonato mundial, em Montreal, fiquei em quinto lugar. Quinto lugar num campeonato mundial? Quinta entre trinta adversárias? Quinta do mundo? Maravilha! Fiquei feliz da vida. Em Munique, fiquei terceira. Oba! Terceira é pódio. E o nosso revezamento 4 por 50 medley foi campeão. Medalha de ouro, gente! Não cabia em mim de tanto contentamento. Explico para eventuais leigos, que no revezamento 4 por 50 cada um dos 4 nadadores nada 50 metros, e que no nado Medley, o primeiro nada de costas, o segundo nada de peito, o terceiro vai de borboleta, e o quarto fecha de crawl. Conforme o grupo etário, a soma das idades dos participantes tem que atingir 120 anos ou mais, até 159 anos; depois 160 anos ou mais, até 199 anos, e assim por diante, pulando de 40 em 40 anos: 200 ou mais, 240 ou mais, 280 ou mais, 320 ou mais, e finalmente o raríssimo 360 anos ou mais. Já pensaram? Para constituir um revezamento desses, a idade média dos nadadores tem que ser de 90 anos. Se por acaso algum deles tiver menos do que isso, outro membro do quarteto deverá ter mais, para equilibrar a conta.

Nessa temporada de 2017 participei de um revezamento desses, formado por nadadores do Grêmio Náutico de Porto Alegre. Um dos nadadores tem 93 anos que nem eu. Juntos podemos integrar os seis anos que faltam a outra hora nadadora de apenas 84 anos.

Voltando agora ao breve relato das minhas conquistas e alegrias, em Riccione fiquei segunda nas provas individuais e também no revezamento. Vice-campeã Mundial! Que tal essa? A mamãezinha aqui, vice-campeã! Fiquei nas nuvens depois disso durante semanas: nada me perturbava, nem a minha costumeira dor nas costas, nem ter perdido um dente, nada! Feliz como estava, tirava qualquer desgosto de letra.

Finalmente, em Gotemburgo, na Suécia, ganhei medalha de ouro em todas as provas individuais de que participei; e para concluir, em Montreal, 20 anos depois do meu primeiro campeonato mundial, realizado naquela mesma cidade, ganhei 7 medalhas de ouro: 5 das minhas provas individuais e 2 dos revezamentos livre e Medley. Além disso, bati 5 recordes mundiais. Nem preciso dizer do contentamento, do orgulho que sinto até hoje por essas conquistas. Quantas horas de treino enfrentadas em águas geladas no inverno – o meu clube não aquece a água da piscina – quantas câimbras debeladas, quantas dores vencidas no ombro e nas costas, cada uma dessas medalhas evoca! É natural, portanto que isso me torne orgulhosa, e por que não dizer, até um tanto envaidecida.

Eis a demonstração de mais uma vantagem do esporte na vida da gente: ajuda a manter em níveis razoáveis a nossa autoestima. Não bastasse isso, aqui vai uma das melhores vantagens: nos treinos e nas competições você conhece um monte de gente. Faz inúmeros amigos, amigos de excelente qualidade, pois o fato de a pessoa se dedicar ao esporte, perseguir as mesmas metas que você persegue, já garante uma boa afinidade. Espero que com esta resenha das minhas vivências como nadadora Master, tenha conseguido cooptar alguns – tomara que sejam vários! – de vocês para o meu esporte.

– Mas eu não gosto de competir! Jamais me meteria numa enrascada dessas – devem pensar aqueles cuja índole não é competitiva.

Não faz mal; ninguém precisa competir, basta nadar com ritmo calmo e constante como quem está passeando durante um tempo suficiente para provocar cansaço, e fazer isso possivelmente 3, 4 vezes por semana e fazer sempre. Era assim que eu ia nadando calmamente para cima e para baixo numa piscina chamada Pulo n’Água em Nova Friburgo, durante anos, sem nem saber da existência da natação máster, quando foi ―descoberta‖ por um grande campeão dessa modalidade, o saudoso Gastão Figueiredo.

– Vem cá, – me disse ele – você nada direitinho. Será que você não queria fazer parte nossa equipe no Clube de Regatas Icaraí? Nós vamos participar de um campeonato sul-americano em Belo Horizonte daqui a um mês, e já obtivemos um ônibus da prefeitura para nos levar até lá. Você topa?

Inteirada tintim por tintim dos detalhes sobre a natação máster – Gastão havia vindo ao Pulo n’Água justamente para divulga-la – claro que topei na hora.

Um detalhe: fiquei muito orgulhosa pelo advérbio ―”direitinho” do Gastão. Valeu muito mais do que muitas medalhas que andei ganhando em seguida. Fazendo apenas isso – nadar mesmo sem competir – vocês poderão usufruir de um benefício que eu nem mencionei e, no entanto, é importante: não sei se acontece com todo mundo, e se ocorre ao praticar qualquer outro esporte. O que sei é que comigo, funciona sempre. Quando tenho alguma tristeza, sofro alguma decepção ou me sinto desanimada, vou nadar. Depois dos primeiros 400 metros já me sinto melhor; no fim do treino, estou praticamente recuperada. É como se a natação tivesse limpado o meu cérebro das preocupações ou dos maus pensamentos. Pois é, se a gente suja a mão, é fácil limpa-la, basta ter água e sabão. Mas limpar o cérebro só mesmo nadando!

Para vocês fazerem uma ideia da variedade de tipos de atletas Masters e da multiplicidade de motivações que nos movem, vou citar um trecho de entrevista que o atleta Luiz Lima, secretário Nacional de esporte de alto rendimento do Ministério do Esporte, concedeu ao informativo da Associação Brasileira de Másters de Natação:

―A natação master tem a possibilidade de abordar o atleta de formas diferentes: tem o atleta que foi nadador em criança, parou cedo e depois de mais velho retorna: a habilidade motora, de técnica, de estilo, permanecem, mas a preparação física caiu muito porque ficou sedentário muitos anos; tem o atleta que chegou nadando à fase adulta e parou e depois retorna; o atleta que foi campeão, atleta olímpico e voltou; o atleta que nunca parou de nadar (meu caso); o atleta que nunca nadou, aprendeu já em idade mais avançada, e de repente é mais apaixonado do que um atleta olímpico; o atleta que enfrentou um problema psicológico, dependente químico cuja dependência a natação, o esporte, auxiliou a superar (e que substituiu o vício pelo esporte). Estes últimos necessitam de um suporte maior, pois chegam ao esporte fragilizados emocionalmente, e querem nadar de segunda a domingo, em um comportamento compulsivo, obcecado, transferido para o esporte. Tem a pessoa que vai para o esporte master para fazer parte de um grupo social, pois é solitária. Todos os exemplos de que falei aqui, vivencio dentro da minha equipe, sem exceção. ‖

Bem, agora já falei bastante sobre o primeiro dos meus lazeres, e pela extensão do meu discurso poderão avaliar o quanto a natação é importante na minha vida. Mas não se assustem, não serei tão maçante ao falar dos outros dois dos meus lazeres.

O de leitura adquiri ainda criança de 7 anos. Vivia naquela época em Budapeste, na Hungria, para onde meu pai foi transferido pela firma italiana onde trabalhava. Foram 4 anos de permanência naquele país durante os quais estudei do segundo primário ao primeiro ginásio. Um famoso pesquisador do folclore e das Lendas magiares escreveu uma obra Mundo das histórias e das Lendas Húngaras em volumes a perder de vista. E u tinha um monte deles, que empilhados ao lado da janela, atingi am o topo do parapeito. Lia-os e os relia com sofreguidão e se tivesse o dobro deles, não cansaria de lê-los.

Infelizmente o tempo me apagou as memórias desses contos; sobraram me apenas vagas lembranças dos motivos que recorriam neles com maior frequência. Por exemplo: havia um matuto sabido que na disputa com o diabo levava sempre a melhor. Em outro contexto o herói, um pobre diabo, ganhava uma mesinha que, ao serem pronunciadas certas palavras mágicas, enchia-se das mais gostosas e variadas iguarias, regadas a bebidas deliciosas. Claro que eu me identificava com esses sortudos e ficava muito feliz por eles. Mas essa bonança intelectual acabou em 1935, quando meu pai foi chamado de volta para Itália, onde, na escola, nos cobravam um sem número de leituras obrigatórias que não nos deixavam tempo para as leituras de nossa livre escolha.

Fomos obrigados a ler a Ilíada, a Eneida, a Jerusalém liberada, e os indefectíveis Cuore, de Edmundo de Amicis e os Noivos, de Alessandro Manzoni. A nossa professora, não muito sagaz, nos fez ler, aos 13 anos, Pirandello. Eram obras clássicas de indubitável valor literário, só que eu não tinha ainda maturidade bastante para apreciá-las. Talvez, se não nos fossem impostas à força, nós teremos gostado de uma ou outra delas. Creio que a Ilíada, com todas aquelas brigas e aventuras, poderia nos ter agradado. Mas à força? Não!

Aos 14 anos fui proibida de frequentar a escola devido às leis raciais vigentes à época. Os professores, por sua vez, também foram proibidos de dar aulas a qualquer criança judia ou descendente de avós, bisavós, ou trisavós judeus. Daí em diante é que pude de novo escolher as minhas leituras. Imediatamente comecei a ler os romances de Emilio Salgari, uma espécie de Júlio Verne italiano. Isso não impediu que me atirasse com gosto à leitura do próprio Verne, e em seguida à dos romances de Alexandre Dumas, esses dois últimos em francês, pois a língua estrangeira ensinada na Itália tinha sido o francês, o que me permitiu ler mesmo que aos trancos e barrancos esses livros no idioma original em que foram escritos.

Não posso deixar de mencionar ainda um livro de escritora dinamarquesa Karen Michaelis sobre uma garota, Bibi, filha de um Ferroviário, que por isso podia viajar de graça em todos os trens de sua Pátria. Devido a essa leitura passei a simpatizar fortemente com aquele país, que vim a conhecer através dos olhos da Bibi. Essa minha simpatia passou a ser admiração também alguns anos mais tarde, quando a pequena Dinamarca durante a segunda guerra mundial foi invadida pelos alemães. Esses deram ordem para que todo cidadão judeu dinamarquês usasse uma estrela de seis pontas, a estrela de Davi, amarela nas suas roupas, para poderem ser facilmente reconhecidos pelos soldados alemães e deportados para os vários campos de extermínio. Aí o rei da Dinamarca mandou costurar uma estrela igualzinha nas suas roupas também. Nisso, toda a cor te seguiu o exemplo real, ao que todos, sem exceção, todos os súditos dinamarqueses costuraram estrelas amarelas nas suas roupas. Os alemães ficaram no mato sem cachorro, pois não mais conseguiam distinguir quem seria e quem não seria judeu.

Vejam, não poderei agora enumerar toda a carrada de livros que andei lendo desde aqueles tempos remotis, e para dizer a verdade nem me lembraria de todos eles. Mas nenhum deles passou por mim sem deixar alguma marca, sem mexer comigo, para o bem ou para o mal. Cada obra que lemos se agrega ao nosso capital intelectual ou espiritual enriquecendo a nossa visão do mundo. É como viver múltiplas vidas simultaneamente. Convém, porém, escolher criteriosamente as nossas leituras.

Ler os clássicos só pode nos trazer benefícios, uma vez que já passaram pelo crivo da crítica há tantos anos. Por outro lado, as novidades recém-lançadas poderão nos proporcionar boas surpresas. Um dos últimos livros que i com muito prazer foi ―A História do Futuro‖ da Miriam Leitão, mulher de grande inteligência e carisma. Recomendo muito!

Às vezes fico pasma ao ver a disposição de pessoas que passam noites madrugada adentro, postadas às portas de algum hotel, para ver, nem que seja de relance, seus Ídolos: algum cantor, ator ou jogador de futebol lá hospedados. Usar o tempo perdido dessa maneira para em vez disso ler um bom livro seria tão mais proveitoso! Eu não nego o merecimento de muitas dessas celebridades, apenas acho exagerada toda aquela idolatria.

Na quietude de uma biblioteca a gente pode comungar com os maiores gênios que já habitaram nosso planeta, e sem fazer fila, sem longas vigílias e sem se acotovelar para tanto. Suponho que de novo andei pregando para convertidos. Mas se por acaso houver aqui alguém nem tão afeito às leituras e que, de agora em diante passe a procurar mais as livrarias e bibliotecas — além das piscinas, é claro — considerarei isso uma grande vitória e ficarei deveras feliz.

Como vocês podem ver, conforme eu disse lá atrás, eu faço o que professo: com as minhas distrações de aposentada, acabo.

Finalmente, UFA, meu terceiro hobby é cuidar de plantas. Elas são lindas, nos alegram os olhos e a alma, e nos proporcionam uma constante companhia silenciosa, por serem feitas do mesmo póde estrelas do que nós. A mim, pelo menos, me dão a impressão de me compreenderem e apoiarem. E ainda enfeitam a casa!

Como vocês podem ver, conforme eu disse lá atrás, eu faço o que professo: com as minhas distrações de aposentada, acabo cuidando do corpo, da mente e da alma. Exatamente o que propõe este projeto tão bonito, que se ocupa de oferecer, a pessoas de idade como eu, as condições de envelhecerem em um ambiente harmônico e belo.